domingo, fevereiro 5, 2023
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“Toda vez que avançamos no campo democrático progressista, o jogo do outro lado acompanha” – Brasil de Fato RS

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Política
Autora da Lei 15.484/2020, que estabelece a promoção de ações que visam a valorização de mulheres e meninas e a prevenção e combate à violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul, Sofia Cavedon está indo para seu segundo mandato na Assembleia Legislativa. Reeleita com 39.039 votos, atualmente é presidenta da Procuradoria Especial da Mulher do Parlamento gaúcho.
“Fizemos várias audiências públicas e uma foi sobre o direito ao aborto legal. Nela demonstramos que de 2018 a 2021, 1.980 meninas de 10 a 14 anos tiveram filhos, e esse é um dos casos previstos ao direito ao aborto legal. Nós queremos chegar na prevenção, evitar o estupro, violência contra menores de idade, contra as crianças, contra as adolescentes, e não conseguimos. Esse é um número que aumenta”, destaca a parlamentar em entrevista ao Brasil de Fato RS.
Professora, sindicalista e feminista, Sofia foi vereadora por cinco mandatos em Porto Alegre. Também foi secretária municipal da Educação e Cultura. Como deputada estadual presidiu a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia. 
Para a deputada, com o resultado das eleições de outubro deste ano, a bancada progressista avançou democraticamente. “Nós temos, só das bancadas de esquerda e centro-esquerda, 18 parlamentares. Nesse sentido nós tivemos um avanço muito importante. A nossa bancada, a bancada do Partido dos Trabalhadores, avançou de inicialmente oito eleitos para 11, agora com três mulheres", afirma. 
Abaixo a entrevista completa 
Brasil de Fato RS – Qual sua avaliação da nova composição da Assembleia Legislativa? 
Sofia Cavedon – Eu não tenho dúvida que a Assembleia Legislativa avançou democraticamente. Em uma conta simples, nós tínhamos na oposição a esse projeto do Estado mínimo e de privatizações, que tem aliança com o Estado conservador, no máximo 12, as vezes chegávamos a 15, 16 votos com alguns independentes. Agora nós temos, só das bancadas de esquerda e centro-esquerda, 18 parlamentares. Nesse sentido, nós tivemos um avanço muito importante. A nossa bancada, a bancada do Partido dos Trabalhadores, avançou de inicialmente oito eleitos para 11, agora com três mulheres. 
Acho que foi uma resposta a um belo posicionamento político que conseguimos com a candidatura Edegar e Pedro Ruas. Com essa aliança já no primeiro turno, que é uma novidade bacana, mostramos que temos unidade, podemos trabalhar juntos. Nós, o PCdoB e o PV, e do outro lado o PSOL com a Rede, conseguimos um avanço extraordinário. 
O PSOL dobrou a bancada de uma maneira muito significativa, a deputada Luciana Genro super votada, mais o Matheus Gomes. A nossa bancada também se fortaleceu muito, foram votações muito expressivas. Nós vamos nos posicionar com bastante força no próximo período nos embates que acontecerão. 
BdF RS – O Lula teve uma votação expressiva em algumas cidades aqui do estado, como Bagé, na Metade Sul, regiões que anteriormente eram Bolsonaro. A que tu atribuis esse crescimento? Quais as condições colocadas que favoreceram essa votação?
Sofia – Rio Pardo também, por exemplo, nós ganhamos lá. Percebemos que faz muita diferença uma cidade ter uma vida partidária mais intensa, mais presente, e fazendo as disputas cotidianamente nas cidades, ali o resultado é melhor. As cidades que conseguiram fazer a resistência ao golpe, estar nas ruas, problematizar, depois resistência à reforma da Previdência, resistência à reforma trabalhista, pela inocência de Lula… 
Todas as lutas de resistência nas universidades, lá na fronteira nós temos a Unipampa, foi uma conquista daquela região. Termos Instituto Federal lá, isso faz uma diferença porque foram conquistas. 
Vejo outras regiões atemorizadas, regiões que eu acompanho mais aqui na Serra, algumas cidades como a minha, Veranópolis, que acabamos perdendo o único mandato de vereador, onde estamos com uma vida partidária tíbia. Quando vamos lá, é quando acontece campanha, andamos, mas tem que vir de fora pra dentro para dar uma fortalecida, e não teve quem colocou contraponto mais no pé da cidade. Aí é difícil tu ter uma eleição como essa que nós conseguimos. Não tem como avaliar cada uma das regiões, mas certamente foi a nossa capacidade de estar presente, vivo, resistente, problematizando o que vendiam como verdade, em especial as fake news. 

"Nós precisamos avançar nas estruturas, nas políticas públicas mais gerais para a vida das mulheres" / Foto: Fabiana Reinholz
BdF RS – Tu já estás há muito tempo na política, vereadora, deputada, abrindo um caminho para as mulheres. Hoje tu enxergas avanços na atuação política, apesar de toda a violência que se vê a partir desse caldo de ódio que estamos vivendo no país?
Sofia – Sim, tem empoderamento feminino, mas a direita também organizou as suas mulheres. Olha uma Damares da vida. A direita organizou as representações de todo esse modelo conservador. Isso nos coloca em xeque na luta das mulheres, é impressionante. 
Toda vez que avançamos em um campo democrático progressista, o jogo do outro lado acompanha. Então hoje vemos mulheres de direita fazendo a representação do conservadorismo, do valor da família tradicional. 
Não é só isso que justifica, que avançamos no campo democrático, mas não se vê resultados concretos para o conjunto das mulheres, avanços de verdade. Tivemos aumento nos casos de feminicídio, temos aqui um índice de meninas que engravidam e que têm filhos. 
Eu sou a procuradora da mulher, fizemos várias audiências públicas e uma foi sobre o direito ao aborto legal. Nela demonstramos que de 2018 a 2021, 1.980 meninas de 10 a 14 anos tiveram filhos, e esse é um dos casos previstos ao direito ao aborto legal. Nós queremos chegar na prevenção, evitar estupro, violência contra menores de idade, contra as crianças, contra as adolescentes, e não conseguimos. Esse é um número que aumenta. 
Então, eu digo sim ao empoderamento das mulheres, sim a uma luta de mulheres na rua, nos parlamentos. Nós avançamos na representação de mulheres. Mas o jogo do outro lado continua muito pesado.
BdF RS – O corpo das mulheres parece ainda ser o centro da pauta conservadora…
Sofia – Sim, vemos que os temas do conservadorismo são sobre a mulher, sobre o corpo das mulheres, sobre a postura das mulheres, o sexismo, o encaminhamento das meninas. Está muito difícil avançar, e por isso a nossa responsabilidade, dentro dos espaços políticos é maior ainda. 
Mas não é só neles, olha a mistura da religião com política, tu tens que cada vez dizer mais que tu não és contra Jesus, porque senão tu perdes a eleição. Tem a força das religiões/empresas, instaladas na periferia das cidades e por dentro da classe média, média-alta. Um machismo que se organiza e reorganiza pelo capitalismo, reorganiza pelo poder econômico, reorganiza pela educação, pelos meios de comunicação e pelas religiões. Ele se reinventa, inventa novas formas de controlar as mulheres.
Às vezes acho que o jogo continua empatado e não conseguimos avançar na libertação do conjunto das mulheres. Por isso, essa eleição do Lula é tão estratégica. Nós precisamos avançar nas estruturas, nas políticas públicas mais gerais para a vida das mulheres. 
O que assistimos no último período? A retirada das secretarias de mulheres, a retirada dos recursos, virou só caso de polícia, o que temos é só o tratamento da violência. A prevenção, ela bate nessa ação da direita que trabalha só com ‘chega de mimimi, a mulher tem que se empoderar, tem que se embelezar, tem que empreender’. Essa é uma visão que nega a estrutura machista e que coloca a mulher numa condição inferior, tanto no trabalho quanto na liberdade física, afetiva e econômica. 
BdF RS – Que projetos tu conseguiste desenvolver à frente da Procuradoria da Mulher?
Sofia – Em relação à procuradoria, eu considero que temos uma marca diferente, que é ter dado voz para as mulheres nesse um ano. Fizemos muitas audiências públicas na busca da paridade de gênero, da questão da violência, da questão do investimento na casa da mulher brasileira, casa da mulher gaúcha, que perdemos. 
O orçamento passou de menos de R$ 1 milhão para R$ 18 milhões, só que é um orçamento que não consegue ser executado. Fizemos audiências públicas sobre isso e o governo fala que vai fazer, fala que tá em licitação, fala que tá em edital. Eu vi um edital para abrigo de mulheres, e esse abrigo de mulheres teve um período de seis meses e foi interrompido. Agora o argumento é burocrático, não tem prestação de contas. 
A única coisa que eu posso afirmar é que fizemos uma escuta maior, deu mais voz, e tentamos incidir. Por exemplo, encaminhamos nesse tema do aborto legal uma audiência com o Ministério Público. O MP nos apresentou uma cartilha que nós estamos tentando dar visibilidade, uma cartilha que orienta conselheiros tutelares, agentes de saúde, para situações de abortamento legal, para que o acesso seja feito. 
Fizemos uma tribuna popular, demos voz às médicas que atendem, porque são poucos hospitais referenciados, e elas são super perseguidas, patrulhadas. Nós trouxemos aqui as gurias do Presidente Vargas, médicas, enfermeiras, que atuam no acolhimento das mulheres que têm direito ao aborto legal, e elas relataram a dificuldade. Inclusive estão fazendo uma emenda para fortalecê-las em relação ao patrulhamento, do questionamento, da denúncia ao Ministério Público. 
Nós temos colegas médicos dentro do próprio hospital que quando entram casos eles denunciam ao Ministério Público para verificar se é caso de aborto legal. É uma coisa assustadora, porque nós temos poucos hospitais referenciados, e eles são patrulhados. 
Tem situação que o Fórum Estadual do Aborto Legal nos trouxe, que não fosse a Justiça tu não conseguias garantir o aborto, porque o hospital lá no interior não consegue fazer, porque exigiu BO e o aborto legal não exige BO. Tem entraves em todas as instâncias, no caso das crianças no Conselho Tutelar. 
Trabalhamos com o tema do aleitamento materno, da segurança, da tranquilidade para o aleitamento, e conseguimos concretamente abrir uma sala de amamentação aqui na Assembleia, um lugar tranquilo, seguro para a mãe que quiser amamentar, ou o pai que vier com criança aqui nos movimentos, nas mobilizações, dar sua mamadeira.  
São vários pontos, aspectos, da luta das mulheres que instituímos. Temos junto com a presidência da Casa um observatório, onde está sendo feito o processo das relações de gênero na Assembleia. 
Faremos agora 21 dias de ativismo, vamos participar com campanha pública da Assembleia.  Já estamos construindo com o presidente, vai ser inédito a Assembleia se envolver. 
Nós criamos uma cartilha lá em fevereiro, de como usar a lei Maria da Penha, como tu pode acessar os benefícios da lei. Temos feito várias procuradorias itinerantes em diversas regiões do estado, como em Gravataí, Canoas, Nova Hartz, Pelotas. 
Agora, no mês de outubro, faremos uma escuta de 15 dias sobre a prevenção ao câncer de mama. Será presencial com formulários para serem preenchidos pelas pessoas, que depois nós vamos botar no sistema. O nosso eixo da procuradoria é: transformando leis em igualdade. 
Também vamos fazer uma atividade sobre violência política. Foi feita uma cartilha sobre o assédio no trabalho, distribuímos em firmas. Poderia citar várias ações, porque entendemos que tem que fazer chegar na mão de quem é atingido, quem sofre violência, o empoderamento, eu tenho direito, eu não posso ser assediado. 

Intervenção da deputada estadual Sofia Cavedon (PT/RS) no evento contra os feminicídios realizado na ALRS / Divulgação PTSul
BdF RS – Como conseguir prevenir os casos de violência contra as mulheres?
Sofia – Uma ação que eu considero estratégica é trabalhar a prevenção na área da educação e na cultura. Não haverá, como dissemos, tornozeleira suficiente, cadeia suficiente, patrulha da Maria da Penha suficiente, que impeça alguém de querer matar e que mate. Nós temos que mudar a cultura. 
Eu tenho a honra de ter aprovado a lei 15.484, com diretrizes para uma educação não sexista. Também realizamos, com o apoio da Procuradoria da Mulher, o segundo ano de formação das professoras para mudar o currículo das escolas. 
Nós vamos fazer a mostra das práticas pedagógicas não sexistas, que apareceram durante esse curso que já está acontecendo na escola, das escolas que levaram a nossa exposição.
Pretendemos, no dia 8 de março, quando eu entrego a procuradoria, fazer uma exposição de como é possível lá na escola mudar o currículo, para que tenhamos meninos e meninas igualitários. 
Eu me nego a ficar só no debate do momento que a violência já está acontecendo, sair socorrendo as mulheres. Nós temos que fazer o debate lá do início, de onde é que nós produzimos o machismo. Eu tenho insistido muito nisso, temos a lei que respalda. A lei 15.484 não é para dar trabalho pra escola, é o contrário. Ela respalda, inclusive, as escolas dos assédios. 
As escolas são patrulhadas se elas tratam de igualdade de gênero, se elas tratam de liberdade das mulheres, se elas trazem esses temas dos costumes à tona e permitem um debate livre. São patrulhadas por deputados, ou por vereadores, ou por lideranças, ou por famílias, famílias conservadoras, elas denunciam, elas vão para cima, nas escolas privadas nós temos professoras demitidas. 
Nós tivemos denúncia de demissão de professores que trabalhavam o Iluminismo, e que mostra como essas mulheres foram invisibilizadas. A demissão de professores por trabalharem é patrulhamento de alunos, por conta das famílias, pela ideologia que essas famílias têm direito, mas elas têm que respeitar uma educação libertadora. 
Então tem muito que fazer ainda nessa formação, vide o debate eleitoral, está no centro disso os costumes, é impressionante o medo da liberdade e da sexualidade. 
BdF RS – No fascismo essa questão da sexualidade, da sexualidade pervertida, é muito forte.
Sofia – Exatamente, transformar em perversão o que é a liberdade de sujeito, da menina e do menino, que deveria ser liberdade. Nós temos um fenômeno acontecendo, que é importante que o Brasil de Fato reporte. Eu assisti no ICL, o Instituto Conhecimento Liberta, uma reportagem da correspondente nos Estados Unidos, em que lá se começou a proibir livros em escolas. Quando os Estados Unidos fazem isso, nós já sabemos que é o imperialismo, porque isto é o capitalismo em operação. Aqui no RS, nós tivemos o fechamento das bibliotecas escolares, todas as bibliotecas perderam mediadores de leitura, aqui não chegou a ter e não tem a proibição de livros ainda, que eu saiba.

"Uma lição que a pandemia nos deu, é que não existe educação sem a mediação, a presencialidade" / Foto: Fabiana Reinholz
BdF RS – Todas as bibliotecas das escolas estaduais fecharam?
Sofia – Todas as bibliotecas das escolas estaduais estão sem mediadores de leitura, ou seja, elas estão abertas eventualmente. As bibliotecas escolares estão um desastre, temos escolas em que elas viraram depósito, tem escolas que tu só vês livro didático empilhado, tem escolas que está tudo sob pó.
Tem escolas que acabou estragando o telhado, piso, porque não tem ninguém.  Já tínhamos pouquíssimos bibliotecários em escola, tínhamos dois ou três na rede inteira, o governo tirou todos os professores de dentro das bibliotecas e colocou em sala de aula. Em 2020 veio a pandemia, aí mesmo que ficou tudo fechado. 
Mas veja, nós não tivemos projeto nas práticas pedagógicas da pandemia. Em uma das lives que nós fizemos, teve relato de uma professora de biblioteca de escola municipal, que à noite promovia uma live de leitura antes de dormir. Imagina que lindo, o trabalho que um bibliotecário poderia ter feito.
Olha a beleza de projetos que poderiam ter acontecido, e já não tínhamos professores responsáveis por biblioteca nenhuma. 
Nos períodos, por exemplo, de abertura, quando estava com menos contaminação, as crianças iam buscar o polígrafo para fazer em casa, poderiam levar livros, mil coisas poderiam ter sido feitas, e não foram feitas em relação ao fomento da biblioteca, do livro e da leitura. 
BdF RS – Teu mandato tem atuado no sentido de reverter essa situação? 
Sofia – Nós instalamos, em 2019, a Frente Parlamentar em Defesa do Livro e da Leitura. No final do meu primeiro ano de presidenta da Comissão de Educação e Cultura, a meninada do Protásio Alves abriu uma faixa pelas bibliotecas abertas. Não conseguimos reverter, entramos no Ministério Público e ele chamou o governo várias vezes. O MP está tentando fazer um TAC, um termo de ajustamento de conduta, para reabrir as bibliotecas. E a última resposta do MP para nós, para o CRB (Conselho Regional de Biblioteconomia), é que não é possível fazer um TAC porque a secretaria não oferece as informações. 
Ou seja, a secretaria posterga, enrola o MP, que aliás devia já ter punido, já ter aplicado multa. O Tribunal de Contas também já recebeu nossa representação, porque tem perda de acervo, e porque tem lei federal que determina que todas as escolas tenham bibliotecas, bibliotecas abertas, com acervo atualizado, com mediador de leitura, etc. 
Tem um processo de termo de ajustamento de conduta, que também não chegou a termo ainda, para obrigar o governo do estado a ter uma política para as bibliotecas escolares, que não seja abandoná-las. 
A visão deste governo é que bastava usar a internet, o livro virtual. A maioria pagou um sistema de acesso ao livro durante a pandemia, e o retorno das nossas escolas é que 10% das crianças aproveitaram, porque nem um celular minimamente tinham em casa para utilizar, se quer para as aulas, quem dirá pra ficar lendo livro em celular, tablets. Cá pra nós, é uma falácia de que a escola substituiu o livro pelo livro virtual. 
É muito grave, e temos tentado dar visibilidade para essa pauta, mas ela ganha de vez em quando lá na página do Correio do Povo uma visibilidade. Vocês é que tem sido apoio para denunciar essas barbaridades. 

"O nosso plano de educação foi um plano muito lindo, de forma geral, ele trazia metas de ampliação, por exemplo, do turno integral" / Foto: Natália Martins
BdF RS – A educação sempre foi uma pauta central pra ti. Durante a pandemia, praticamente não existiu a educação. Como resgatar um projeto para a educação? 
Sofia – Uma lição que a pandemia nos deu, é que não existe educação sem a mediação, a presencialidade, a mediação de um professor, de uma professora, de um projeto de escola, mesmo no ensino privado, não existe essa possibilidade do homeschool. 
Eu consegui aprovar, nesse último ano, a comissão especial de monitoramento do Plano Estadual da Educação. Por quê? Porque nós temos um Plano Nacional da Educação que está no oitavo ano agora, um Plano Estadual da Educação e planos municipais da educação, que foram frutos de uma visão de educação como bem público, como uma política pública, e como uma política de Estado. E demonstramos na comissão que apenas cinco das 20 metas estão sendo cumpridas, a maioria do ensino superior, por conta das nossas universidades e institutos federais. 
O nosso plano de educação foi um plano muito lindo, de forma geral, ele trazia metas de ampliação, por exemplo, do turno integral. As escolas de turno integral seriam hoje uma solução na volta da presencialidade, não totalmente, porque nós temos que pensar que o menino jovem trabalhador, de famílias pobres, ele precisa de um estágio, ele precisa ajudar na renda da família. Esse é um problema, a evasão escolar do ensino médio é altíssima, o que não é o caso da escola primária. Mesmo assim o turno integral poderia ser composto pelo jovem aprendiz, a parte que tu estás na aprendizagem, recebendo um dinheiro, aprendendo junto ao trabalho na empresa, acompanhado pela escola. 
Tínhamos 30% das escolas aqui que ofertavam algumas turmas de turno integral, e foi reduzido 26. Então invés de ter ampliação do turno integral, para inclusive dar conta do pós-pandemia, nós tivemos redução de turno integral. 
Como que reagiram nesse governo os conservadores no estado do RS? Já em agosto do ano passado, vimos aumentar o período de português e matemática. Reduziu educação física, artes, sociologia, biologia, a formação integral, reduziu todos os períodos. 
Não tinha professor o suficiente, desorganizou a base curricular, orientamos as escolas: não mudem a grade curricular enquanto não tiver professor aqui. 
O que aconteceu? Qual o diagnóstico de quem voltou para a escola? A meninada em crise, chorando, em depressão, se mutilando, a meninada sem saber o sentido da existência. Porque pensa, adolescente, jovem, criança viver dois anos de pandemia, conviver com a morte, ficar em casa, perder as relações humanas, conviver com a dureza da vida em família, com os problemas em família, com violência… 
A escola é tudo, eu dedico a minha vida à escola, porque eu acho que a escola salva, mas que seja uma escola democrática. 
O que estamos vendo? Estamos em crise, porque tem um pacto agora no estado do RS, e um comitê da busca ativa e da recuperação da aprendizagem. O presidente da Assembleia me encaminhou para acompanhar, e eu tenho pautado todos esses temas. E eu tenho dito que não é possível, nesse momento que a gurizada está com todos os problemas emocionais do mundo, o currículo não ter educação física. Eles precisam correr, encontrar sua corporeidade de volta, trazer a alegria de viver. Tem que ter filosofia, línguas estrangeiras. É uma perda da possibilidade do desenvolvimento interpessoal e o desenvolvimento integral. Então tem que voltar um currículo multicultural. 
Se o governo estadual tivesse chamado seus professores, seus pais, ou escutasse os estudantes, as entidades estudantis. Ninguém foi escutado, nós fizemos mil audiências públicas aqui sobre o novo ensino médio, sobre a escola de curso normal ano passado, para que o governo escutasse. Vinha lá uma técnica e dizia: não se preocupe, vamos ouvir vocês. Dia 30 de dezembro foi o decreto que mudou o currículo das escolas de ensino médio, 30 de dezembro, em janeiro com recesso, fevereiro a gurizada chegou, estava mudado. Os professores chegaram, uma semaninha para se adaptar e saíram improvisando. Um assédio aos profissionais da educação, isso é uma outra questão muito importante.
Nós temos que recuperar o processo de aprendizagem. Precisamos de professores e professoras com tempo de estudo, com tempo para capital humano, bibliotecas apoiando-os, no contraturno. Nós perdemos o programa Mais Educação, todas as alternativas para meninada estar na escola jogando, fazendo oficina, na internet, no computador, não tem, porque não tem ninguém para mediar. 
Menos dinheiro na educação, menos salário dos professores, menos tempo para a formação. Aqui no estado do RS, eles colocaram a formação na mão de ONGs empresariais.
Falta um projeto sério construído com as nossas inteligências, com os nossos profissionais de ensino superior, de ensino médio, com as nossas escolas, com as nossas direções de escola. Isso que precisamos fazer na sequência, não tenho dúvida nenhuma que com o presidente Lula nós teremos, vamos ver com os demais governos. 
BdF RS – Para finalizar, quais serão os teus principais projetos nesse novo mandato?
Sofia – Estou muito feliz com esse novo mandato. Esses temas que eu já falei, eles são o carro-chefe, o tema da educação, da cultura. Meu mandato se dedica muito à cultura, lutamos muito pela pauta no estado. Fizemos o Articula, aprovamos duas leis só para fim de apoio à cultura, dando condição de auxílio emergencial, via FAC, o Fundo de Amparo da Cultura. Aprovamos lei do Hip-hop Patrimônio Imaterial, com diretrizes. 
Teremos mostras de artes cênicas aqui na Assembleia o ano que vem, lutamos por quatro anos para que tenha uma mostra como deixamos na Câmara Municipal. Não é fácil, aqui na Assembleia as coisas não são fáceis de acontecer, tu tens que convencer, tem que superar entraves burocráticos da própria instituição. 
Nós temos que fortalecer o Sistema Estadual de Cultura, e os sistemas municipais de cultura. Essa é uma dedicação que eu terei com certeza. Por que o sistema? Porque não adianta nós botarmos dinheiro na cultura se o povo que faz cultura não é ouvido, e se o recurso não é descentralizado.
Outro tema que eu vou me dedicar é a questão ambiental. Estamos produzindo um projeto de lei de ecoalfabetização. Tenho um projeto de lei que determina que as escolas tenham que ter a coleta de água, reciclagem da água, que determina que ela tenha composteira, o uso do posicionamento solar, são diretrizes para os espaços escolares. 
Esse é um debate estratégico para a vida humana, já trabalho com o tema da alimentação saudável, da agroecologia, os compromissos, assinei cartas importantes. Uma delas é o compromisso com a agroecologia. 
É uma alegria para mim ter um mandato pela frente, vamos fazer um planejamento participativo incorporando todo o debate dessa campanha, e o acumulado que nós temos do diagnóstico que percebemos tanto na eleição, mas principalmente no trabalho que fizemos nesse primeiro mandato. 
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Edição: Marcelo Ferreira
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